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Esperança contra a surdez em BH
Conhecido como “ouvido biônico”, o implante coclear é um dispositivo eletrônico formado por duas partes dotadas de ímãs. A parte interna é colocada dentro da cóclea, que é o “caracol do ouvido”, por meio de cirurgia. Já a externa se parece com uma prótese comum e, encaixada na orelha do paciente, capta sinais sonoros, transforma-os em digitais, e transmite as informações até as fibras do nervo auditivo, por eletromagnetismo. Graças a essa tecnologia, até quem sofreu lesões nas células sensoriais auditivas fica apto a escutar e ganhar qualidade de vida.

Coordenador do Serviço de Otorrinolaringologia do HC/UFMG, Celso Becker explica que o procedimento é indicado para casos de surdez profunda bilateral (que atinge os ouvidos esquerdo e direito), com duas situações de pacientes “ideais”. Vale para crianças com até três anos que nasceram completamente surdas e, por isso, ainda não aprenderam a falar. E também para meninos, meninas e adultos que dominam a fala, mas perderam a audição por algum motivo, como uma meningite. Como não se restringe à função de amplificador de sons, tem efeito bem superior ao oferecido por aparelhos auditivos convencionais.

“O Hospital das Clínicas da UFMG já fazia o implante coclear antes, mas por meio de convênios. Com o credenciamento pelo Ministério da Saúde, usuários do SUS poderão se submeter à cirurgia sem sair de BH”, diz Celso Becker. Sem a liberação pelo Governo fe-deral, quem precisava da operação tinha que viajar até São Paulo antes, durante e depois da colocação do equipamento. Além do desgaste para o paciente e para a família, as idas e vindas dificultavam o acompa-nhamento pós-cirúrgico e a reabilitação da pessoa que, muitas vezes, tem que aprender como falar.


 Na capital mineira, a previsão é de que a cirurgia via SUS seja feita já em fevereiro de 2010. Atualmente, o HC/UFMG recebe 115 casos novos de pessoas com problemas de surdez por mês, além dos retornos dos pacientes já protetizados. Todas experimentam, primeiro, próteses auditivas comuns para tentar solucionar a deficiência.

Se o ganho trazido pelo aparelho tradicional não é o esperado, o paciente é indicado para a cirurgia de implante coclear. Como o custo do procedimento é alto - cerca de R$ 50 mil -, o SUS libera apenas um implante para cada pessoa, ainda que ela não escute dos dois ouvidos. O resultado, porém, é bastante satisfatório, especialmente se a família do paciente se envolver de fato na reabilitação.

“Depois da cirurgia, é feito um acompanhamento por médicos, fonoaudiólogos, psicólogos e assistentes sociais”, diz Celso Becker. Mesmo assim, os parentes precisam entrar em cena porque não há mágica no processo. “Uma criança que não ouvia nada vai passar a escutar a palavra “janela”, por exemplo. Mas a família terá que explicar o que aquele termo quer dizer, mostrar o que ele é. Fazer essas associações, ganhar vocabulário e aprender a falar leva tempo, e isso varia de pessoa para pessoa”, alerta.

 Ele lembra ainda que quanto mais jovem o paciente pré-lingual (que ainda não fala), maiores as chances de sucesso da intervenção - já que, com o passar do tempo, os nervos auditivos vão se atrofiando. Por isso, é importante que a mãe esteja atenta a sinais de que a audição do filho não é boa.

 Em BH, o encaminhamento de quem sofre de surdez ao serviço do HC/UFMG é feito pelo centro de saúde. Também é possível conseguir informações pelo SOS Saúde, no telefone 3277-7722. Embora delicada, a cirurgia de implante coclear é mais simples que outras operações no ouvido e o paciente tem alta no mesmo dia ou na manhã seguinte. Além da capital mineira, o procedimento também foi autorizado pelo Ministério da Saúde em Montes Claros, Juiz de Fora e Governador Valadares. Só para se ter uma ideia, no estado do Rio de Janeiro nenhum hospital é autorizado pelo SUS a fazer a cirurgia. 

Cirurgia transforma a vida de pacientes
A oferta do implante coclear pelo SUS, em BH, é a chance de Flávia Cristina Vertelo, 33 anos, redescobrir o mundo dos sons. Ela nasceu ouvindo e aprendeu a falar, mas perdeu a audição aos poucos. A dificuldade para escutar é tanta que ela saiu da escola e, mesmo usando um aparelho convencional contra a surdez, só percebe ruídos muito altos, como a sirene de ambulâncias.
“Não a deixo sair de casa sozinha porque um carro pode vir e a Flávia não perceber. Não temos condições de fazer a cirurgia do ouvido biônico em São Paulo e, em BH, vai ficar mais fácil. Escutando bem, ela poderá conversar normalmente com os filhos, assistir à TV e até conseguir um trabalho”, torce a mãe de Flávia, Sebastiana Gomes.
 
Prazeres que Pedro, 6 anos, já encontrou. Ao notar que o filho não reagia a barulhos, a mãe dele, Cláudia Chaves, procurou ajuda em SP. Com um ano e meio de idade, o garoto recebeu o primeiro implante coclear, via SUS. Aprendeu a falar e hoje canta, lê, brinca e estuda em uma escola regular. Há menos de dois meses, implantou o segundo apare-lho - desta vez pelo convênio, no HC/UFMG, e tem uma vida normal. “Nem a professora se lembra de que ele é implantado”, festeja a mãe.
Notícia publicada em Sexta, dezembro 18 @ 10:42:31 BRST por quintino
 
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