| JK 40 anos - Moradores contam histórias do maior edifício de BH |
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Ele nasceu para ser outra cidade dentro de Belo Horizonte. Foi idealizado para ser autossuficiente, dotado de restaurantes, hotel e até mesmo um museu de arte moderna. O Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, considerado um dos maiores marcos da arquitetura contemporânea do país, chega em 2010 aos 40 anos com estilo e de cara nova.
A revitalização de uma das fachadas será finalizada neste ano, com investimentos de R$ 800 mil. Projetado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer, o arranha-céu possui 1.086 apartamentos e comporta cerca de 5 mil moradores - população maior do que a de 200 municípios mineiros - com histórias de vida a compor biografias dignas de livros.
Nessa trajetória de lembranças dos últimos 40 anos, algumas peças se encaixam com delicadeza e emoção para reconstituir momentos marcantes do JK, como a história da ex-funcionária do Ministério das Comunicações Ângela Regina Carvalho da Costa, de 66 anos.
Em seu apartamento, ela está sempre impecável. Roupa discreta e ao mesmo tempo elegante, cabelos bem arrumados, um sorriso amigo e muito bom humor. Capricha no figurino e nas palavras. Conversa com todos e os chama de tesouro, palavrinha que acabou virando seu apelido.
Mesmo morando lá há 10 anos, a história de Ângela com o JK começa muito antes, quando seu pai, o enge-nheiro João Júlio Jacob, era amigo do então governador Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902/1976). “Meu pai era funcionário do Departamento de Estradas e Rodagem (DER).
Eu era criança, mas ainda me lembro de uma noite, no ano de 1950, quando Juscelino foi até nossa casa. Naquela conversa entre ele, meu pai e um empresário, Juscelino contou da ideia de construir o edifício JK”, lembra Ângela, que teve JK como padri-nho de casamento. “Hoje, eu moro no edifício idealizado há 60 anos na sala da minha casa. E eu adoro este lugar”.
No bloco oposto ao de Ângela, mais uma história de amor eterno ao JK. Pela imensa janela com vista para a praça Raul Soares, do apartamento 806, do bloco B, a moradora Dora Alice Rebola Andrade, 80 anos, observa atenta a paisagem. São 14 horas de uma terça-feira ensolarada em BH.
O trânsito está lento nas vias públicas e a tarde abafada. Porém, ela mantém o bom humor habitual. “Adoro a vista daqui. É linda”, diz. Hoje, ela passa a maior parte do tempo no aconchego de casa, onde gosta de escrever livros sobre ervas naturais, beleza e culinária. “Um deles tem mais de mil páginas com receitas da família e outras que vejo em jornais, revistas e na Internet”. Arranha-céu teria hotel, boate e cinema A proposta inicial de JK, da década de 1950, teve o arrojo de imaginar um local com serviços completos para os moradores. Os edifícios teriam uma estrutura que atenderia a todos. O arra-nha-céu prometia hotel, boate, complexo comercial, cinema, teatro e área de lazer com piscina. Os dois prédios seriam ligados por uma passarela. A obra esbarrou em dificuldades de viabilização, inclusive por interesses políticos e dificuldades econômicas, provocando o envelhecimento prematuro do projeto. O JK foi inaugurado quase 20 anos depois do previsto.
Caminhar pelos imensos corredores do JK e observar a sequência de portas, sempre fechadas, pode ser considerada uma experiência um tanto sombria. Mesmo habitado por 5 mil pessoas, o que se percebe, com facilidade, é o absoluto silêncio, que passa pelas portas de madeira e esbarra em tudo, como se fosse palpável. Raro é encontrar alguém andando em seu interior. Solitário nesta cidade vertical, está o servidor público Paulo Andrade, 49 anos. O morador de um duplex do bloco A não reclama, pelo contrário, adora sua liberdade e não pensa em sair do JK. “Gosto tanto deste lugar que morei aqui em 1990, tive que sair e agora voltei novamente”.
Quem conhece muito esse mundo quarentão é a costureira Carmem Aparecida Belo, de 78 anos. Ela é pura emoção ao lembrar a história da família, que veio morar no condomínio três anos após a inauguração. Antes, ao longo da década de 1960, dona Carmem morava na Avenida Olegário Maciel, bem próximo ao prédio. A costureira assistiu as torres do JK crescerem sob os olhos atentos dos moradores. “Ele chamava a atenção de quem passava pelas ruas. Acho que até hoje ainda chama”, aponta Carmem.
Atenta aos detalhes, ela guarda na carteira uma foto dela com o edifício ao fundo, com a data de 21/11/1973. Tantas histórias só aguçam a curiosidade e aumentam o respeito dos mais jovens pela distinta senhora. Uma rápida conversa na galeria principal é o suficiente para perceber sua popularidade.
O Conjunto JK é considerado um dos prédios mais significativos da utopia moderna em BH. No estúdio de Oscar Niemeyer, de frente para o mar de Copacabana, no Rio de Janeiro, a esposa dele, Vera Niemeyer, conta que o marido, mesmo aos 102 anos, tem jovialidade para trabalhar todos os dias nas centenas de projetos, croquis e desenhos espalhados pela mesa. Sobre o JK, ela conta que ele não é de falar muito de seus projetos, mas se lembra com carinho do edifício da capital mineira. “Ele acaba um projeto e já está debruçado em outro”, diz ela. O arquiteto e urbanista Danilo Matoso Macedo lembra da proposta do Conjunto JK de oferecer serviços nas áreas de uso comum do edifício, como restaurantes, lavanderias, entre outros.
“Hoje, esse tipo de ideário acabou por ser apropriado pelo mercado e pela po-pulação na forma dos apart-hotéis. Nesse sentido, o JK estava à frente de seu tempo”, disse ele, autor do livro “Da matéria à invenção”, que fala sobre as obras de Niemeyer em Minas Gerais. O arquiteto considera os edifícios íntegros e robustos, além de importantes marcos no horizonte da cidade. Os anos se passaram e o JK enve-lheceu. Em tempos não tão remotos, o prédio da Rua Timbiras teve a fama de local propício para a prostituição e tráfico de drogas.
A habitação das moradias teve o curso alterado pelas circunstâncias e a imagem do conjunto foi associada a uma favela urbana, conforme os próprios moradores relatam. “O local ainda é habitado por pessoas de diferentes níveis sociais. Para muitos, infelizmente, ainda é visto como uma favela”, disse um dos moradores, que preferiu não se identificar, com receio de represálias dos vizinhos e da administração. “Doa a quem doer, a verdade é essa. O local ainda tem uma fama ruim sim”, disse.
Morador do prédio há sete anos, o arquiteto e urbanista Pedro Morais, 32 anos, desenvolve um projeto de requalificação do conjunto JK. “Grande parte dos problemas que ainda hoje o atingem são fruto dos percalços sofridos ao longo da sua construção e também da falta de arti-culação entre os diversos atores envolvidos na sua gestão, como poder público, iniciativa privada, proprietários e administração do conjunto”. As modificações propostas aconteceriam em cinco espaços públicos do prédio, mas a postura fechada da administração do JK, conforme ressalta Pedro Morais, tem sido o grande empecilho para o projeto.
A preocupação em reverter os desgastes de imagem e social do edifício é apontada pelo gerente administrativo do JK, Manoel Freitas. Segundo ele, investimentos em requalificação dos espaços e obras de revitalização têm sido feitos frequentemente. “Todos os anos investimos cerca de R$ 800 mil em reformas de todos os tipos. Esse ano iremos entregar a revitalização de toda a fachada do bloco B”.
Sobre a fama de ser um local propício para a prostituição e tráfico de drogas, ele rebate as afirmações e diz que a atual administração tem tomado as medidas cabíveis para evitar esses transtornos. “Isso não existe mais. Há uns 15 anos existiam fatos isolados e ainda existe esse preconceito, mas, hoje, a situação é outra”. Fonte: Hoje em Dia
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Notícia publicada em Terça, fevereiro 02 @ 17:15:39 BRST por leoquintino |
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